Querida Nessie,
escrevo-te esta carta porque não consigo encontrar o meu rumo neste caminho a que chamamos vida. Já não tenho as forças suficientes para seguir em frente "às cegas" e descobrir um novo mundo de sensações, toques e emoções diferente, não sou capaz de experimentar outro tipo de mundo físico sozinha. A força que possuía de poder enfrentar tudo e todos e de me levantar sozinha esgotou-se, e agora, sinto-me perdida, como se tivessem acabado de me deixar no nada, sem opções de seguir qualquer rumo.
Sinto que estou a entrar num estado de loucura, onde já não é possível a minha mente distinguir a realidade dos sonhos. Vejo-o em todo lado, apesar de saber que ele não está lá, vejo o seu rosto iluminado pelos primeiros raios solares da manhã que entram pelos espaços abertos das cortinas do quarto apesar de saber que estou deitada na minha cama sozinha. Isto foi só o principio, depois comecei a vê-lo em todos os rapazes de costas que se encontravam na rua e enchia-me de esperança e paz, mas depressa percebia que não era ele. Comecei a ver todos os filmes do Channing para ver se o conseguia tirar da cabeça, mas sabes o que acabou por acontecer? Cada palavra, cada expressão pronunciada, cada olhar, cada sentimento lembravam-me a sua personalidade. Eles, para mim, são de certa forma iguais, a personalidade forte, a beleza tanto exterior como interior e claro, a forma como vivem a vida, como se cada dia fosse um desafio, uma batalha que tinham de travar com todo o empenho para que o dia seguinte fosse mais fácil, mais feliz, mais tudo para eles...
Comecei a sentir-me como se tivesse sido abandonada num deserto quente, ou até mesmo, num plano de gelo sem fim. Sentia-me a arder por dentro, como se tivesse no deserto, onde a areia escaldava-me os pés descalços, o vento ardente me provocava queimaduras na cara, onde o meu corpo se assimilava a um vulcão prestes a explodir. No deserto, era o local onde sentia o calor dele, onde ele me parecia real e onde me lembrava do seu lado mais puro. Era ali, naquele local, onde me lembrava da sua lealdade, da sua amizade, do seu toque, do amor à sua maneira, das suas palavras dóceis, do seu olhar cheio de vida e de felicidade e do seu sorriso que me aliviava a dor nos momentos de mágoa. Era ali! Era ali, que recordava todos os bons momentos que passamos juntos. Apesar do calor, das queimaduras, da falta de água, era ali que me sentia bem. E como tudo acaba, pegaram em mim e arrastaram-me para um plano de gelo sem fim, onde o frio era insuportável, e apenas uma túnica curta e fina cobria o meu corpo. Os pés descalços que outrora escaldavam com a areia quente, ardiam agora com o gelo cruel e frio. O meu corpo tremia de frio e a minha cara ardia devido ao vento frio e violento que passa por mim como se fosse vidro. Ali, lembrei-me da outra parte da sua personalidade. Lembrei-me da sua personalidade difícil e da sua ausência. Lembrei-me como me pode magoar como gelo e como pode simplesmente seguir em frente, sem sequer olhar para trás e ver o estado em que me deixou. Ali senti-me sozinha, insegura e abandonada. Esqueci-me dele por um bocadinho e lembrei-me de toda a minha vida e de todo o mal que já me tinham feito. O meu mundo desabou ali.
Mas o que te queria realmente contar, era que, apesar de tudo isto, é que não consigo derramar uma única lágrima. As minha lágrimas esgotaram-se, a minha dor interior vai-se acumulando aos poucos e eu não consigo aliviá-la. Um dia, a dor vai ser demasiado grande de suportar, e aí vou aliviá-la toda de uma vez, tenho apenas receio que não seja nem da forma certa ou com a pessoa certa.
Para que te escrevi esta carta? Para que saibas como me encontro e porque razão o meu sorriso se esgota a um dado tempo. Peço-te que me ajudes, tira-me do gelo, tira-me do deserto e dá-me a paz interior que mereço. Encontra o meio termo e encaminha-me para lá, para a temperatura amena....
Despeço-me de ti com os poucos beijos que te posso dar.
Nessie preciso de ti...